O CRIADOR E SUAS (RE)CRIATURAS

O CRIADOR E SUAS (RE)CRIATURAS

“A teoria do bom selvagem”, de Rosseau, diz que o homem por natureza é bom, nasceu livre e que sua maldade advém da sociedade que com sua presunçosa organização, impõe a servidão e a tirania. Dessa forma Rousseau faz uma crítica objetiva à sociedade moderna e suas regras e padrões limitadores do cerne criativo que todo ser humano possui.

Mas, nem todos se curvam aos saberes racionais e científicos. Quem vê as peças incomuns da Ignis Industrial não imagina o caos criativo que existe por trás de cada uma delas. E o responsável por transformar pedaços de maquinários, móveis e objetos antigos, madeiras e metais descartados em objetos únicos é Luis Cesar de Oliveira, um apaixonado por ferramentas, formas e traquitanas.

Natural de Mandaguari e criado em Londrina (PR), Luis cresceu ajudando seu pai a instalar postes e transmissores elétricos nas fazendas e patrimônios da região, ao mesmo tempo em que via sua mãe, dona Cida, costurando encomendas em sua Singer 667 ZigZag. Depois de formar-se em um curso de técnico de eletrotécnica, decidiu que estudar não era sua praia e pôs o pé na estrada. Em companhia de João Livoti, seu amigo de longa data, conheceu boa parte do mundo com uma mochila nas costas e pouca grana no bolso. Na volta, com uma extensa bagagem de referências, optou por exercitar sua criatividade empírica bem longe das carteiras das universidades. Resultado: ele e João criaram a Desmobilia.

Há cerca de 7 anos, a dupla que sempre praticou o reuso e o restauro de móveis e objetos decidiu trazer para o Brasil um conceito pouco conhecido pelos brasileiros: o Upcycle Design. A partir daí as mãos de Luis nunca mais ficaram livres dos resíduos de graxa, das manchas de tinta e das ferpas de metal. Assim nascia a Ignis Industrial.


Com uma habilidade incrível, um senso estético e espacial incomum e uma expertise rara no manuseio de ferramentas e matérias-primas, todos os dias Luis emerge num processo criativo nada cartesiano, em meio a pedaços de madeira, ferro, alumínio, plástico e sabe-se Deus mais o quê. “Pra mim é tudo muito simples: eu olho um móvel cheio de cupim, um outro de metal, uma peça garimpada num ferro velho e já vejo o produto final – um móvel híbrido que mistura tudo isso que, aparentemente, não tinha nada a ver. Tiro as medidas na trena, faço os ajustes a olho, soldo aqui, parafuso ali, coloco um detalhe de metal pra dar um toque pitoresco e pronto”, conta Luis.

Simples, não é mesmo? Não é bem assim. Mas, para esse “bom selvagem”, que consegue unir a brutalidade da matéria à delicadeza do design bem aplicado, é como respirar. Quem vê Luis trabalhando tem a sensação de que ele está se divertindo com peças de um quebra-cabeça gigante. E, assim, objetos fadados a se decomporem no ferro velho, ou a apodrecerem em algum depósito empoeirado, transformam-se em peças exclusivas e de sofisticada harmonia plástica. Sem contar com o caráter ambiental e a alta durabilidade, promovida pelo uso de materiais altamente resistentes como aço, ferro e madeira de lei.

O trabalho que Luis Cesar de Oliveira traz pela Ignis apresenta-se, de várias formas, como uma provocação criativa. Uma charada que esconde em si a dúvida e a resposta. Um processo de desconstrução e construção ilimitado. É o criador dando uma segunda chance de vida às suas (re)criaturas improváveis e, por isso mesmo, fantásticas.

Redação: Ignis Journal.
Fotos: Ignis Industrial.

This Post Has One Comment

  1. Muito muito legal … A criação é algo fascinante e quase inexplicável, uma simples vírgula ou nesse caso um simples parafuso, peça ou algo semelhante da lugar a ideias e criações.

    Parabéns pelo seu trabalho Luis

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