Recycle ou Upcycle – você sabe a diferença?

Recycle ou Upcycle – você sabe a diferença?

Pelo senso comum, eles são considerados “primos”, mas, na prática, o recycle e o upcycle têm diferenças que realmente justificam o uso desses dois termos. A pergunta que fica é: em que convergem e em que divergem essas duas visões do uso de materiais no design contemporâneo?

Primeiramente, sim, os dois processos partem do reuso de produtos industrializados ou manufaturados que seriam descartados, ou por já estarem obsoletos, ou por já terem “cumprido” sua função inicial. Mas a forma como isso ocorre na reciclagem e no upcycling é bem diferente.

Vejamos o que é reciclagem: se pegarmos uma garrafa PET, moermos sua estrutura e utilizarmos os grânulos obtidos nesse processo como matéria-prima para criarmos um vaso, estamos falando de reciclagem. Se, em vez disso, limparmos a mesma garrafa e a usarmos diretamente para fazer vasinhos em uma horta vertical, estamos falando de upcycling (Viu? Sua vó já faz upcycling há anos e você nem sabia!).

O que importa, em suma, é que na reciclagem ocorre a reutilização dos componentes de um produto como matéria-prima para se obter um outro produto. Já no upcycling reutilizamos de maneira total ou parcial um objeto exatamente como ele é, para criar um novo objeto. Ah, lembrou de Marcel Duchamp? Exatamente! O gênio da arte conceitual chamaria isso de readymade, mas, o propósito de upcycling não é necessariamente a expressão artística.

Como na reciclagem, no upcycling o objeto resultante pode ou não ter a mesma função do objeto antigo. Mas, os exemplos mais inovadores de upcycling partem da ideia de inserir o objeto original em um contexto totalmente diverso. Outro ponto a se destacar é que no caso do upcycling temos um impacto menor no meio ambiente, pois quando convertermos um objeto em matéria-prima por meio de um processo de reciclagem, geralmente utilizamos uma considerável quantidade de energia. Ou seja, essa “segunda vida” que o upcycling dá ao objeto não requer que ele seja degradado.

Entendido esse aspecto, vamos agora propor uma outra discussão: o que agrega valor a um produto upcycling? Certamente, a criatividade de quem vê um objeto e consegue imaginá-lo como parte, ou todo, na concepção de um novo produto. Aí é que entra o bom design! Esse processo de reinvenção torna-se ainda mais valorizado quando as peças descartadas que foram utilizadas na “recriação” são únicas, o que enfatiza a sua exclusividade. Dessa forma, o produto upcycling design terá um valor intrínseco maior do que tinha(m) a(s) peça(s) original(is) em sua existência anterior.

Na Ignis Industrial vivenciamos diariamente essa “alquimia” maluca do upcycling quando combinamos objetos provenientes de universos totalmente diversos em recriações únicas. Ela aconteceu, por exemplo, quando transformamos um velho capacete de jato de areia na luminária de mesa Casco Iluminado.

Ou, ainda, na peça Ultrasonic – uma luminária de chão com forte inspiração no estilo Steampunk, composta por cinco diferentes peças constituídas por materiais bastante diversos, como madeira, metal e bakelite.

Essa visão nada cartesiana e questionadora do que é propriamente produzir um objeto de design é o que faz com que o processo de criação de peças upcycling ganhe uma potência transformadora. Estamos falando de algo que se aproxima muito mais da arte do que da produção fabril, e que tem em sua origem a expressão da habilidade e da inventividade de seu criador. Sim, existe um sujeito ali!

É exatamente esse desafio criativo que faz a Ignis Industrial apostar pesado nessa proposta que vai muito além da reutilização de um objeto “como ele é” e que passa por uma verdadeira desconstrução espacial, funcional e conceitual do que nossa sociedade produz como resíduo de sua atividade neste planeta.

Curiosidade: apesar do termo upcycling ter surgido há cerca de 20 anos, alguns projetistas do século XX já “flertavam” com esse conceito. Entre eles, Achille Castiglioni, que no início da década de 1950 utilizou partes de vários objetos, como uma sela de bicicleta e um assento de trator, para compor seus móveis, e Enzo Mari, que em 1992 criou para a marca Alessi o “Ecolo” – um kit que estimulava as pessoas a criarem vasos a partir de garrafas de detergente vazias. Fonte: www.inexhibit.com

Redação: Ignis Journal.
Fotos: Ignis Industrial.

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